MV BILL FALA DE MAIORIDADE PENAL, BOLSA FAMÍLIA, MACONHA, DA PROXIMIDADE COM O CRIME E COMO FUGIU DELE: “SEMPRE TIVE MEDO DE MORRER MUITO CEDO”

Em entrevista a HT, o grande nome do rap brasileiro também disse que continua morando na favela por opção e que "muitos jovens acabam empurrados para a criminalidade". Esses temas e tantos outros ele debateu antes de se apresentar no festival Espírito Rap


* Por Lucas Rezende
Segunda-feira, 06 de Julho de 2015, MV Bill chegava na academia montada dentro de seu apartamento – um dos dois – que tem na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. Na porta, um menino de sete anos o esperava para contar que curtia assistir ao clip da música “Tem que ser Monstrão”. “Ele começou a cantar a música toda. E era um dia que eu estava muito descrente musicalmente aqui na minha área. Aqui o pessoal só curte funk e pagode. Se eu fizer um show num lugar que cabem 2 mil pessoas e vender o ingresso a R$ 10 não vão dar nem 10 pessoas. E aí, vem um moleque que ouve sua música, e fica na frente da sua casa te esperando só para te dizer isso?”. Essa foi a história narrada pelo rapper a pedido de HT. Não especificamos se queríamos ouvir algo recente ou antigo, triste ou feliz. Pedimos apenas uma memória aleatória que ele quisesse contar. E a escolhida diz muito do homem que estará nas linhas a seguir.
MV Bill nasceu, há quarenta anos, no Hospital da Lagoa Rodrigo de Freitas, perímetro nobre do Rio de Janeiro. Ali, ficou poucas horas. Após alta, foi direto para a Cidade de Deus, região periférica da urbe-maravilha, onde mora e pretende morar até ir dessa para uma melhor. E por pura opção. “Não condeno quem sai da favela quando ganha dinheiro, mas no meu caso eu fico porque quero”, deixou claro ele, que tem dois apartamentos na CDD: um na encosta e um mais adentro. “É um aprendizado continuar morando em um lugar como esse. Eu tenho uma dualidade: ao mesmo tempo que pego um avião legal, fico hospedado em um lugar bacana para fazer show, eu volto para uma realidade dura”, contou o homem que ganhou a cena do hip hop brasileiro e continua ouvindo tiroteios do quarto. “Eu tenho uma vida antagônica, com os pés no chão. Não canto uma coisa que eu acho, e sim uma coisa que vivo”.
Vivência essa que tinha tudo para ser diferente. No lugar dos microfones, uma metralhadora. E dos CD’s, as drogas. Mas MV Bill, como provou por a+b nessa entrevista, tem cuca no lance e não se deixou levar pelo cotidiano que o rondava. “Por mais que o tráfico fosse nossa referência principal, eu sempre tive medo de morrer muito cedo. O medo me fez ficar afastado daquelas coisas. Muitas das pessoas que estão no crime cresceram comigo e acabei por ter uma relação com elas”, contou. Mas fácil, ele garante que não foi. Enquanto trabalhava em banca de jornal, de flanelinha ou ajudando madames a carregar compras de supermercado, via os conhecidos do tráfico colocando “as melhores roupas e tendo as melhores namoradas”.
“Era legal ser do crime. Eles eram os caras que causavam admiração. Mas o mesmo cara que colocava o melhor tênis da Cidade de Deus estava na outra semana deitado no chão, cheio de sangue. E naquela época, o rabecão demorava metade de um dia para chegar. Então, você tinha 12 horas para refletir sobre aquilo”, lembrou. E MV Bill parece não ter precisado de tanto tempo. Não se envolveu com o submundo, fez trampos mil, e encontrou na música um impulso para se tornar um artista. “Eu tentei muito cedo. Mas em cidades praianas como o Rio de Janeiro, eles preferem ritmos mais eufóricos. Eu sempre fui apagado na época da escola, e quando eu descobri que tinha aprendido a fazer hop hip, eu me encontrei. Aquilo me impulsionou”, contou ele, que já sabia que suas músicas “não seriam radiofônicas” e que, apesar das adversidades, se orgulha de ter trilhado “um caminho diferente”.
“Eu venho de uma geração onde nossas inspirações eram gringas. Eu ouvia muito Ice-T. E agora, ver um cara como oProjota, que fala que na juventude dele me ouvia, ou ouvia Mano Brown, isso é muito maneiro”, conta todo feliz. As músicas de MV Bill, como não poderiam ser diferentes, são um retrato fiel da realidade da favela e do marginalizado brasileiros. E canções como “Estilo Vagabundo”, “Só Deus Pode Me Julgar” e “Soldado do Morro” poderão ser ouvidas durante a comemoração de dois anos do festival Espírito Rap, no Ilha Shows, em Vitória (ES), no próximo dia 24 de julho. MV Bill será o headliner ao lado de Haikaiss, Primeira Mente, Sammuca 05, DJ Nox e o mestre de cerimônia Ber Cartel. Ele promete mesclar as canções novas com as mais recentes, já que faz bastante tempo que não vai à Ilha. “Espero que o contratante me dê bastante tempo”.
Sem filhos e com nenhum casamento no currículo, MV Bill já pensa em um próximo projeto. Ele nos relevou que está tentando parar seu parceiro de escrita Celso Athayde – expert em favelas e periferias do nosso país – para assinarem um novo livro. “Seria ele contando a infância e juventude dele, e eu, paralelamente, contando a minha. Em algum momento da obra a gente se encontrava na vida”, adiantou. Na entrevista, MV Bill ainda foi tácito ao defender os menores das comunidades carentes, a legalização da maconha e a manutenção de programas sociais como o Bolsa-Família. Depois de traçar um rápido perfil, HT não perdeu a oportunidade de debater temas polêmicos com o homem por trás de “Falcão – Meninos do Tráfico” e da Central Única das Favelas (CUFA). “Há um discurso bem assim: ‘ah, se o jovem não tiver uma escola ele vai para o crime’. Mas muitos jovens acabam empurrados para a criminalidade. Eu garanto: muitos deles não querem ir”. Para ler e refletir.
Redução da maioridade penal
“Primeiro a gente tem que falar no sistema penal. Ele é muito frágil. Eu vejo muitas pessoas reclamando da justiça penal. Uma pessoa que comete um assassinato, se tiver bom comportamento, é libertada com um sexto da pena cumprida. Isso é de se pensar. O outro fator é a não solução do problema. Eu entendo e compreendo a dor de quem é vitima, procuro sempre olhar por esse lado. O jovem que a gente falava no passado, que a gente brincava, é diferente do menor infrator de hoje. Os crimes são diferentes. Eu conheço favelas que têm garoto de nove anos que já está segurando uma pistola. Mas tem um lado importante que merece maior discussão: a redução, por si só, não traz uma solução, apenas uma alívio momentâneo”.
A aprovação no Congresso Nacional da redução da maioridade penal para crimes hediondos, em meio a uma manobra na calada da noite
“Não soou bem, não pegou bem e mostra que boa parte do Brasil, infelizmente, está indo pelo lado do imediatismo. Acham que isso vai mudar alguma coisa. A gente tem um Estatuto da Criança e do Adolescente tão bem escrito, que se fosse aplicado de forma séria, hoje a gente dificilmente estaria debatendo a redução”.
O fim do tráfico de drogas
“Eu sou um cara muito otimista. O fim do tráfico de drogas é impossível, mas acho que o fim do tráfico de armas, por exemplo, pode ser uma realidade mais próxima”.
Programas assistencialistas inaugurados na Era Lula
“O Bolsa-Família é um dos programas que eu acho que foi muito importante e poderia ser mais ainda. Eu digo ‘foi’ porque ajudou a diminuir a pobreza e poderia ser melhor se não acontecesse tamanha quantidade de fraudes. Quando eu vejo que tem uma família com dois carros na garagem e que recebe dinheiro do programa, me dá uma raiva muito  grande”.
Legalização da maconha
“A maconha é uma droga muito utilizada de forma recreativa e por todos os setores da sociedade.  Ela merece uma discussão mais ampla. Não dá para tratar usuários como traficantes, mas existem outras discussões que estão à frente. Acho que com um povo mais educado, a gente vai estar mais apto a discutir a maconha”.
Serviço
Espírito Rap com MV Bill, Haikaiss, Primeira Mente, Sammuca 05, e DJ Nox
Quando: 24 de julho – sexta-feira
Ingressos: 2º Lote Pista R$ 50,00 (meia), 3º Lote Pista R$ 60,00 (meia) e 2º Lote Camarote R$ 80,00 (meia), 3º Lote Camarote R$ 90,00 (meia).
Ponto de venda: Site da Blueticket
Horário: 22h
Local: Ilha Shows. Alameda Ponta Formosa, 350, Praia do Canto
Informações: (27) 3224-3726 / 99644-1643

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Sobre: Néfilim Hespanhol

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